MAR DE MORROS (Música e Letra de Anibal Werneck de Freitas)
A expressão "mar de
morros" — que descreve o relevo ondulado de Minas Gerais — encontra uma
conexão musical direta e potente na obra de Milton Nascimento e do Clube
da Esquina.
O poema de Aníbal Werneck
cita explicitamente o "Minas do Milton" e o "mineiro-pau",
reforçando essa ligação. As principais conexões musicais são:
·"Mar do
Nosso Amor" (Milton Nascimento):
A letra utiliza a metáfora do mar para descrever sentimentos e paisagens,
ecoando o refrão do poema ("mar de morros, mar de amar").
·"Pátria
Minas / Imaculada" (Marcus Viana):
O compositor frequentemente descreve Minas como um "oceano de
montanhas", onde a música navega como um barco sobre as ondas verdes do
relevo.
·"As Minas
do Mar" (João Bosco): Nesta
composição, Bosco inverte a lógica ao falar de "caçador de tesouros nas
minas do mar", explorando a relação mística entre a terra mineira e a
imensidão oceânica.
·"As
Montanhas de Minas" (Paulo Roberto Alves de Oliveira): Reforça a imagem das montanhas como a característica
central da identidade nacional mineira, citando a "rara e robusta
beleza" do relevo.
Julinho gostava muito
de brincar sozinho no quintal de sua casa, tinha o costume de fazer cemitério de
minúsculos seres, mortos por ele, e isso lhe dava uma certa satisfação, embora
lidando com a morte em si.
Seus pais achavam muito
estranho a sua atitude, mas não faziam nada para impedir a brincadeira bizarra
do filho.
Pois é, acontece que
num certo dia apareceu um amiguinho dele que tinha a mesma mania, ou seja,
matar e enterrar formigas, besouros, mosquitos, minhocas, aranhas, baratas,
gafanhotos, etc, etc, etc..., causando aí uma certa preocupação aos seus
progenitores, até porque, o estranho garoto tinha aparecido do nada, ninguém
sabia quem era ele.
Deste modo, o tempo foi
passando, passando, até que um dia os pais de Julinho resolveram indagar sobre
o paradeiro daquele misterioso moleque e, para o espanto deles, ninguém sabia
informar nada sobre ele.
Isto assustou muito,
porque a cidade era pequena e todo mundo conhecia todo mundo.
Preocupados com o
mistério, os pais de Julinho decidiram observar a brincadeira deles mais de
perto.
Certa feita, no final
de uma tarde, viram os dois meninos ajoelhados no quintal, todavia, algo havia
mudado, eles não estavam mais caçando, e sim, cercando os pequenos ‘túmulos’
com pétalas de flores e gravetos coloridos.
Deste modo, ao se
aproximarem, o garoto misterioso sorriu. Ele tinha olhos calmos e uma voz que
parecia um sussurro do vento.
Ele explicou que não
estavam mais celebrando a morte, mas aprendendo sobre o ciclo da vida. Ele
contou, também, a Julinho que cada ser, por menor que fosse, tinha uma história
e que a terra onde brincavam era sagrada e cheia de vida invisível.
Naquele instante, os
pais de Julinho sentiram uma paz profunda. O amiguinho entregou a Julinho uma
pequena semente de ipê e disse, ‘Agora, em vez de guardar o que parou de
respirar, vamos cuidar do que vai crescer’.
Sendo assim, o garoto
desconhecido caminhou em direção ao portão e, num piscar de olhos, desapareceu
entre os raios de sol do entardecer.
NOTA DO AUTOR: Julinho
nunca mais matou um inseto sequer. Ele passou a plantar sementes e, com o
tempo, o antigo ‘cemitério’, se transformou no jardim mais vibrante da cidade,
repleto de borboletas e flores. Quanto ao amiguinho misterioso este nunca mais
foi visto, mas Julinho sabia que tinha feito um amigo de outro mundo que o
ensinou a transformar a morte em vida.
"Cuitelinho" é uma canção folclórica tradicional brasileira, recolhida no Mato Grosso do Sul por Antônio Carlos Xandó e posteriormente adaptada e finalizada por Paulo Vanzolini. A música, inspirada em versos ouvidos de um barqueiro chamado "Nhô" Augustão, foi registrada por Vanzolini e popularizada na voz de Nara Leão em 1974.
O Coronel Setembrino,
conhecido por sua alma seca como o bagaço da cana, arrastou o escravo Ozório até
a beira de uma cachoeira imensa. O crime de Ozório era ter ‘roubado’ uma barra
de rapadura de seu próprio suor para aplacar a fome dos filhos. Por sua vez, o
coronel, querendo dar um exemplo de terror, decidiu que o castigo não seria o
chicote, mas o abismo.
Enquanto Setembrino erguia
o braço para empurrar Ozório nas águas violentas, o tempo pareceu parar. Um dos
seus capatazes conta que o sol refletiu no espelho d'água com um brilho dourado
tão intenso que o cegou completamente. E assim, do meio da espuma branca e do
barulho do trovão das águas, surgiu uma mulher muito bonita, conhecida pelo
nome de Oxum, entre os escravos.
Não foi uma aparição suave,
pois as águas da cachoeira, antes descendo em linha reta, começaram a
redemoinhar contra o fluxo natural. Setembrino, paralisado pelo medo, viu o
reflexo de seus próprios pecados na face de uma divindade que, certamente, não tolera a
covardia contra os pequenos. Deste modo, Ozório sentiu mãos invisíveis puxando
o seu corpo para a margem segura, onde o mato se abriu para escondê-lo. Enquanto
isso, o chão sob os pés de Setembrino cedeu como se fosse feito de açúcar
molhado e, deste modo, o coronel caiu nas águas que ele pretendia usar como
tumba para o escravo, mas acontece que, Oxum não lhe deu o descanso da morte,
porque ele foi arrastado pela correnteza e devolvido à margem do riacho,
quilômetros abaixo, totalmente sem voz, sem posses e com a mente perdida,
condenado a vagar como um mendigo pelas terras que antes tiranizava.
Por isso, desde esse dia,
dizem que quem passa por aquela cachoeira, e tem o coração limpo, consegue
ouvir o riso de Oxum e os lamentos de Setembrino.