Em Angaturama, pacato distrito de Recreio, MG, conta-se que a calmaria das noites de luar esconde um segredo que arrepiou gerações. Certa noite, os jovens Pedro e José decidiram desafiar os avisos dos mais velhos e caminhar até a antiga estação ferroviária, um lugar marcado pelo silêncio das locomotivas que já não passam mais. No caminho, encontraram Maria, que, aflita, buscava por seu avô, o velho Joaquim, que havia saído para buscar lenha e não retornou. Ao chegarem perto dos trilhos cobertos pelo mato, um frio repentino tomou conta do ar. Pedro avistou uma luz pálida flutuando sobre os dormentes. José, tentando ser corajoso, chamou por Joaquim, mas o que ouviu de volta não foi uma voz humana, mas o som metálico de correntes sendo arrastadas.
De repente, a figura de um homem alto, vestindo roupas de outra época e carregando um lampião apagado, surgiu diante deles. Era Joaquim, o avô de Maria mas seus olhos eram vazios e ele apontava para o antigo casarão que servia de morada para os ferroviários. Maria gritou ao perceber que a mão de seu avô atravessava o cabo de madeira do machado que ele segurava. Diz a lenda local que, em noites de neblina, as almas daqueles que dedicaram a vida à estrada de ferro em Angaturama ainda vagam pelos trilhos, cuidando de um caminho que o tempo esqueceu. Embora parecido fisicamente com o Joaquim, Maria notou que algo estava errado no seu modo de proceder, tanto assim que no dia seguinte, de manhã, o corpo sem vida do seu avô foi encontrado caído nos trilhos. Enfim, deste modo, até hoje, os moradores evitam passar perto da estação ferroviária após a meia-noite, temendo que o som das correntes desperte novamente as lembranças de um passado sombrio.