"Cuitelinho" é uma canção folclórica tradicional brasileira, recolhida no Mato Grosso do Sul por Antônio Carlos Xandó e posteriormente adaptada e finalizada por Paulo Vanzolini. A música, inspirada em versos ouvidos de um barqueiro chamado "Nhô" Augustão, foi registrada por Vanzolini e popularizada na voz de Nara Leão em 1974.
O Coronel Setembrino,
conhecido por sua alma seca como o bagaço da cana, arrastou o escravo Ozório até
a beira de uma cachoeira imensa. O crime de Ozório era ter ‘roubado’ uma barra
de rapadura de seu próprio suor para aplacar a fome dos filhos. Por sua vez, o
coronel, querendo dar um exemplo de terror, decidiu que o castigo não seria o
chicote, mas o abismo.
Enquanto Setembrino erguia
o braço para empurrar Ozório nas águas violentas, o tempo pareceu parar. Um dos
seus capatazes conta que o sol refletiu no espelho d'água com um brilho dourado
tão intenso que o cegou completamente. E assim, do meio da espuma branca e do
barulho do trovão das águas, surgiu uma mulher muito bonita, conhecida pelo
nome de Oxum, entre os escravos.
Não foi uma aparição suave,
pois as águas da cachoeira, antes descendo em linha reta, começaram a
redemoinhar contra o fluxo natural. Setembrino, paralisado pelo medo, viu o
reflexo de seus próprios pecados na face de uma divindade que, certamente, não tolera a
covardia contra os pequenos. Deste modo, Ozório sentiu mãos invisíveis puxando
o seu corpo para a margem segura, onde o mato se abriu para escondê-lo. Enquanto
isso, o chão sob os pés de Setembrino cedeu como se fosse feito de açúcar
molhado e, deste modo, o coronel caiu nas águas que ele pretendia usar como
tumba para o escravo, mas acontece que, Oxum não lhe deu o descanso da morte,
porque ele foi arrastado pela correnteza e devolvido à margem do riacho,
quilômetros abaixo, totalmente sem voz, sem posses e com a mente perdida,
condenado a vagar como um mendigo pelas terras que antes tiranizava.
Por isso, desde esse dia,
dizem que quem passa por aquela cachoeira, e tem o coração limpo, consegue
ouvir o riso de Oxum e os lamentos de Setembrino.
Anastácio, bebendo num
botequim em Conceição da Boa Vista, apostou com os amigos que iria à meia noite
no cemitério, buscar um osso fémur.
Acontece que Prudêncio, um
dos seus amigos, resolveu dar um susto nele, pois conhecendo um atalho até o
cemitério, chegou antes dele.
Deste modo, Prudêncio se escondeu
atrás dum túmulo e toda vez, que o Anastácio pegava um osso, ele dizia com uma
voz cavernosa, Este osso não, porque ele é meu!
E assim Prudêncio foi procedendo
até o Anastácio pegar um, e sair correndo como um louco.
Chegando no botequim, Anastácio
jogou o osso sobre o balcão, demonstrando a sua coragem, e, deixando então, todos
os amigos atônitos.
No entanto, acontece que em
meio a tudo isso, alguém indagou, E o Prudêncio, até agora não apareceu!
No dia seguinte, ele foi
encontrado morto no cemitério.
NOTA: Essa é uma clássica
narrativa do folclore regional mineiro, muito comum no interior de Minas Gerais
(especialmente na região de Leopoldina,Cataguasese
Recreio (onde fica o distrito de Conceição da Boa Vista).
A relação entre a natureza e o homem é profunda e tem passado por grandes transformações ao longo da história, evoluindo de uma dependência direta e mística para uma exploração intensiva e, atualmente, para a busca urgente por sustentabilidade.